A Liberdade sem sushi

Você se forma, arruma um emprego (se estiver com sorte), e aí percebe que precisa se destacar. Como acho que já passei da fase de pintar o cabelo de cores alternativas e que um piercing em qualquer lugar do meu rosto é algo muito radical,  decidi fazer um curso de pós-graduação em São Paulo; afinal, ponte área tem a toda hora; o voo é curto; e seria só de 15 em 15 dias. Me inscrevi e lá fui eu!

Aulas aos sábados, das 08:00 às 18:00, sobre a eletrizante disciplina do Direito Eletrônico. A depressão de estar em São Paulo tendo aula em um sábado ensolarado (mesmo para uma carioca que não frequenta as praias do Rio há alguns anos) é capaz de enlouquecer qualquer ser humano.

Então decidi que o ponto alto dos meus sábados seriam os almoços nos mais diversos restaurantes desse bairro tradicional de São Paulo. Depois de quase um ano e meio indo e vindo, ganhei milhas, bons conhecidos e, a cereja do bolo, ótimas dicas de restaurantes na Liberdade (ganhei conhecimento também, mas como cantarolava minha vó “o que se leva dessa vida é o que se come, e o que se bebe”).

Em nosso primeiro sábado, estávamos todos meio tímidos, em silenciosa avaliação uns dos outros, pois algumas coisas nunca mudam quando se está em uma sala de aula. Formei minha panelinha (que durou o curso todo, com alguns acréscimos) e fomos comer bem ao lado da faculdade mesmo, num restaurante a quilo, chamado General Kung – com itens da culinária japonesa, afinal estamos em plena Av. da Liberdade – cuja única característica digna de nota é o tamanho dos temakis. De tão grandes, primeiro é preciso comê-los com hashi e só depois é possível segurá-los e seguir comendo com as mãos.

Me precavendo para um próximo sábado, pedi dicas para um amigo, que não hesitou e disse: Kidoairaku. Pesquisei o restaurante no Google  e concluí que ele era bem perto da pós. No sábado, então, chegada a hora do almoço, convenci nossa panelinha a irmos nesse restaurante japonês. Fomos descendo a São Joaquim, já antevendo que a volta seria uma via-crúcis pelo tamanho da ladeira que estávamos descendo, e enfim chegamos na esquina com a Galvão Bueno.

Alguém arregalou os olhos e disse (no que seria o primeiro comentário desmotivante do dia): “É aqui?!”. Realmente, a fachada do restaurante não inspirava confiança,mas minha curiosidade era grande e o amigo que deu a dica tem bom gosto.

Empurramos a porta e logo na entrada uma senhora falou, com sotaque carregado de quem aprendeu português tardiamente, que ali não tinha nem sushi nem sashimi, como quem diz “esse restaurante não é para vocês”. Em menos de um minuto, duas pessoas pareciam querer me desincentivar, mas eu respondi, em bom português, carregado no meu sotaque carioca, “A gente sabe…” – entramos e nos acomodamos em uma mesa em frente a um pequeno balcão (que seria descrito como um sushi bar se este fosse um dos inúmeros restaurantes japoneses adaptados ao paladar brasileiro).

Um garçom veio nos trazer o cardápio e informar qual era o prato do dia. Enquanto olhávamos o cardápio, também avaliávamos as paredes cobertas por pedaços de papel branco escritos em kanji, katakana ou hiragana (nunca perguntei) e alguns posters sobre o japão.

O cardápio, ao contrário do que se espera, contém mais semelhanças com um restaurante de comida brasileira do que crê nossa vã filosofia: peixes fritos, bifes, frangos e também yakisoba – o amigo de todos que não comem peixe cru e são compelidos (por amigos, namoradas, parentes) a frequentarem um restaurante japonês à lá Brasil.

Cada um recebe seu prato em uma bandeja, com outros potinhos contendo acompanhamentos: missôshiro, uma saladinha e mais uma porção de algo que esteja sendo preparado especialmente naquele dia – provei tudo, mas não lembro o nome de várias delas. Nunca consegui comer toda a comida que eles servem: a porção do prato principal é bem generosa.

Minha escolha foi o katsu curry (nenhuma semelhança com o cazzo italiano, apesar de ser pronunciado da mesma forma): uma costeleta empanada, super crocante, servida com arroz, e molho curry. Não pensem naquele pó amarelo-alaranjado de curry fajuto que se encontra na maioria dos supermercados; pense naquela pasta de curry, densa, forte, que estamos acostumados a ver em restaurantes tailandeses, que faz você suar desde a primeira mordida.

A casa dá uma sobremesa de cortesia, servida em um pratinho bem pequeno – quase um pires – que em princípio rejeitei. Mas sofri bullying e acabei provando: gelatina de café com (só um pouquinho mesmo de) calda de leite condensado. Esqueçam os tempuras de sorvete, por favor, e sirvam gelatina de café para sempre! (A sobremesa fez tanto sucesso que quem tentou fazer em casa disse que deu super certo, e pode até ajustar – fazer mais forte ou mais fraco – de acordo com a dependência de cafeína do cozinheiro.)

O atendimento é gentil, mas meio confuso, talvez por conta da barreira da língua, talvez pela falta de treinamento e eles aceitam cartões de débito (uma evolução quando comparado com outros locais da Liberdade que só recebem em espécie).

Nesse último ano, voltei inúmeras vezes ao Kidoairaku e todas as vezes comemos muito bem (camarão empanado, frango a passarinho, macarrão-servido-em-um-prato-fundo-boiando-em-água-que-não-sei-o-nome, yakisoba); fizemos mais barulho sozinhos do que todas as outras mesas somadas; bebemos mais que o recomendável para quem tem aula à tarde; enfim, o restaurante serve boa comida, acolhe bem os clientes (vencido o estranhamento inicial) e rendeu bons momentos. Sem contar que o preço é justo e o sake pode ser servido quente na temperatura certa.

(Kidoairaku – End.: Rua São Joaquim, 394, Liberdade – https://plus.google.com/100927150180880721216/about?gl=br&hl=en)

 

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