Les Amoureux

A preferência no quesito comida lá em casa sempre foi bem básica, super “feijão com arroz”, literalmente. Por isso, só lá pros 18 anos descobri algumas maravilhas da culinária e me apeguei tanto que hoje não vivo mais sem certos pratos.

É o caso do steak tartare. Tenho um caso de amor com ele; desde que nos conhecemos, há mais de dez anos, em um pequeno bistrô parisiense (roubei uma garfada do prato de um amigo!), que sou absolutamente louca por steak tartare. Sim, tive que ir até Paris para encontrar aquele que seria meu confidant por todos esses anos – mesmo quando resolvi parar de comer carne vermelha, não deixamos de nos falar.

Inúmeras vezes em restaurantes vi esse prato listado ali no meio do cardápio e nunca tive coragem de experimentá-lo, afinal, se eu não gostasse, ninguém iria trocar de prato comigo. Mas lá na cidade das luzes nos apaixonamos – eu por ele, ele por mim, acredito, já que nunca comi um steak tartare que me tenha feito mal – e desde então ando mais leve, mais feliz, como todos os amoureux.

Em nossas conversas, minha grande curiosidade sempre foi conhecer melhor suas raízes; ele, o steak tartare, sempre muito discreto e retraído, nunca quis me contar seu passado, então fui fofocar com a Wikipedia: ao contrário do que se pensa, ele não tem parentesco com o povo tártaro – seu nome é uma referência ao molho (hoje em dia, a receita evoluiu e o molho tártaro nem passa perto do steak).

Depois da viagem, de volta em solos brasileiros, comecei a prestar mais atenção e buscava o steak tartare  em todos os cantos. Acabamos nos encontrando em vários restaurantes do Rio de Janeiro: Casa da Suíça; New Garden; Esplanada Grill; Esch Café; Garcia & Rodrigues (o restaurante, que não existe mais); e muitos outros.

Conheci também várias facetas do steak tartare: às vezes ele já chega todo pronto; às vezes ele é preparado à mesa, pelo maître, que mistura delicadamente inúmeros ingredientes; ele pode ser “aller-retour”, quando passa rapidamente pela frigideira e fica um pouco menos cru; algumas vezes a gema crua vem inteira em cima dele para você mesmo misturar (esta versão está longe de ser minha favorita); às vezes ele tem outro nome (na Bélgica, ele é conhecido como steak américain); às vezes ele nem está no cardápio, mas o maître se oferece para prepará-lo para você, de tão clássico que é.

Até que um dia fui ao Le Vin e vi ali, em uma seção do cardápio reservada às especialidades da casa,  o steak tartare, servido com fritas (comme il faut) ou com saladinha verde (nada contra a salada verde, mas tenho certeza que o steak tratare  fica desolado quando combinado com algo tão irrelevante quanto folhas verdes).

Comemos o couvert: um pão delicioso – quentinho, com miolo fofo e casca crocante – e fizemos o pedido: para mim, steak tartare, com batata frita e de quebra perguntei se poderiam trazer uma porção de sauce béarnaise a parte para eu comer com as batatatinhas.

Quando ele chegou, eu quis casar com ele: lindo, perfeito, acomodado bem no meio do prato, com as batatas num potinho ao lado e outro potinho para o béarnaise (que vem sem qualquer cobrança adicional). E logo na primeira garfada eu tive certeza: aquele seria para mim o melhor steak tartare do Rio. A carne é picada de forma exemplar, mantém uma consistência impecável (essa fato é de suma importância já que uma carne misturada com mais força que o necessário pode ficar dura e estragar o steak tratare para sempre) e o molho é saborosíssimo, como não havia encontrado em outro restaurante até então (e não encontrei até hoje).

As batatas também estavam deliciosas, assim como o sauce béarnaise, mas eles ficaram ofuscados pela perfeição do paladar do steak e acabei provando só uma ou duas fritas. Conclusão, sempre que vou ao Le Vin como o steak tartare, e sempre que quero comer steak tartare vou ao Le Vin.

Com os anos, o steak tartare  eu viramos unha e carne e eu fui descobrindo outras sensações do cardápio do Le Vin: de entrada, ostras frescas de Santa Catarina, que são servidas com um molhinho que nunca soube muito bem definir do que é feito, mas que é uma delícia; e de sobremesa, pain perdu, a versão francesa da rabanada, feita com brioche, desmancha na boca e fecha com chave de ouro esse passeio gastronômico.

 (Le Vin – End.: Rua Barão da Torre, 490 Ipanema – Tel.: (21) 3502-1002 – http://www.levin.com.br/ )

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3 comentários em “Les Amoureux

  1. Acho que já provei todo o cardápio do Le Vin…
    De fato o steak tartare deles é sensacional! Concordo plenamente que tartare e batatas se completam, principalmente se forem batatas mais gorduchinhas como as que acompanham esse prato no Le vin.
    De entrada, gosto muito do carpaccio de polvo e da salada de queijo de cabra. Quando há o cordeiro com ragu de feijões brancos, é nele que eu vou! Vale a investida, assim como o cordeiro cozido com legumes (cada um cozido no ponto exato).
    A única implicância minha é com o béarnaise, muito carregado na cebola, cobrindo totalmente o sabor do outro ingrediente fundamental do molho, que é o estragão.

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