Enter at Your Own Risk

Crises existências são intrínsecas à vida, há momentos em que elas se potencializam. A vida de um estudante universitário se enquadra em um desses momentos. As pessoas lidam com essa crise de formas diferentes e eu, quando passei por isso, resolvi que o direito talvez não fosse a minha praia e fui estagiar no festival de cinema do Rio – mesmo que não resolvesse meu drama pessoal, pelo menos eu teria direito a assistir a vários filmes.

De fato, não encontrei respostas – pelo contrário, saí de lá ainda mais imersa em questões por perceber que aquilo também não me aquietava – mas conheci um pessoal bacana (sem ser pretensioso), culto (sem querer aparecer) e fofo (sem ser meloso). O festival acabou, mas eles ficaram, nem sempre na mesma cidade, mas pelo menos em um grupo de whatsapp.

Quando nossas localizações geográficas e agendas permitem, nos encontramos para beber, comer e trocar ideias (às vezes sobre assuntos que, ao lembrar, abaixo a cabeça e maneio negativamente, um tanto quanto abismada com os temas e nossas opiniões). Dessa vez, fomos a uma nova pizzaria, na badalada Nelson Mandela que, segundo um dos amigos, valia a pena conhecer: Formato Vino & Forneria.

O clima do Rio de Janeiro não é propício à permanência por longos períodos longe do ar condicionado – ainda mais no verão estatisticamente mais quente-, então nos acomodamos em uma mesa ao fundo do restaurante, onde havia ar condicionado. Recebido o cardápio e a carta de vinhos, meu amigo e eu começamos a investigar as opções.

A primeira coisa que causou espanto foi o formato da carta de vinhos: remetia a um fichário, desses com páginas de plástico, comportando duas fichas por página, com possibilidade de virar a ficha de cima sem virar a de baixo – se é difícil de explicar, imagine de folhear a carta e entender a organização. Apesar de o estabelecimento carregar a palavra vinho no nome, a carta é fraquíssima: são poucas opções de espumantes, somente 3 de vinhos brancos e, apesar de os tintos estarem presentes em maior quantidade, os rótulos também são poucos quando se busca por país.

Diante de poucas opções e da ausência do sommelier, acabamos optando por um rótulo branco de uma das únicas vinícolas (Viu Manet) da carta de vinhos. O Viu Manet Reserva Sauvignon Blanc é possivelmente o pior vinho que já tomei na vida, com gosto de flores e sem qualquer acidez. Certamente, causaria dor de cabeça antes mesmo que terminássemos a garrafa. Pedimos para trocar o vinho e o gerente, de pronto, sugeriu um rótulo tinto. Levaram nosso vinho branco embora e trouxeram um Montepulciano sem qualquer observação ou comentário adicional quanto à substituição.

A próxima má impressão do local foi causada pelo cheiro do guardanapo: os talhares postos à mesa ficam envoltos em guardanapos pretos e, ao pegar o meu para colocar no colo, fui golpeada por um cheio de gorgonzola podre, como se o guardanapo estivesse sujo. Chamamos novamente o gerente, que nos explicou que os guardanapos haviam chegado da lavanderia e que tinham aquele cheiro mesmo (!). Fico com medo de imaginar os odores que desagradam a direção do restaurante.

Nossos outros dois amigos da noite chegaram após esse drama inicial. Então já estávamos satisfeitos com o novo vinho; com a burrata, que parecia dessas compradas em supermercado, mas que em contrapartida vinha servida com pães super gostosos, salada de rúcula com pesto de tomate seco e uma das três opções de azeites da casa – com limão siciliano, com alho e pimenta ou com alecrim e alho -; e com o preço da rolha (por R$60,00 a rolha, vale a pena levar seu próprio vinho, que com certeza será melhor que a maioria dos vinhos da casa).

O pessoal dividiu uma pizza, que parecia bem saborosa, mas nossa maré de má sorte voltou logo em seguida: optaram por passar um pano com água sanitária para limpar o chão, enquanto ainda estávamos por lá. (Tive que escolher entre tapar o nariz com meu guardanapo fedorento ou sentir o cheiro d’água sanitária.)

O quarto e último acontecimento que nos fez concluir nunca mais voltar lá e ainda tentar convencer todo mundo que conhecemos a não voltar (e juntar-se a nós no movimento “NUNCA COMA NA FORMATO”) foi a conta. Para nossa surpresa, ela veio com a cobrança do vinho que pedimos para substituir e do vinho que o substituiu. Pedimos para falar com o gerente (pela terceira vez naquela noite), que tentou nos convencer de que isso era a praxe de restaurantes: só não cobram o vinho ou até o prato se alguma coisa estiver efetivamente estragada. Pasmem!

O cerne da questão aqui foi a falta de clareza do gerente na hora da permuta da bebida, essa malandragem de wannabe carioca de não só tratar mal o cliente, como também querer se dar bem às custas dos outros.

A sorte é que o papo é sempre bom e a “saidera” foi na casa do amigo: um bom vinho tinto servido com decanter.

(Formato Vino & Forneria – End.: Rua Não Vá de Jeito Nenhum; Tel.: Não Sabem Tratar o Cliente – http://www.nuncacomanaformato.com.br)

* Esse post teve a colaboração do amigo Sergio Allisson – pernambucano lindo, entende  de arte e domina como poucos o vernáculo. Vivemos juntos a experiência desagradável relatada aqui.

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2 comentários em “Enter at Your Own Risk

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