No man is an island

Em mais um episódio da série “Dois Cariocas Fugindo da Bagunça”, o namorado e eu fomos para Ilhabela no Carnaval, mais especificamente, para Bonete, no lado Sul da ilha, com acesso por barco (uns 40min) ou por trilha (13km de caminhada). Nesse cenário, a única opção é viajar de mochila mesmo e, quem me conhece, sabe que eu devia estar bem desesperada para sair do Rio, a ponto de aceitar viajar com qualquer coisa menor que um container de roupas e produtos.

Com tanta dificuldade de acesso e restrição de uso de energia (eles funcionam com geradores, que são desligados lá pelas 22hrs), conseguimos mesmo fugir da bagunça, quiçá do mundo. A pousada era ótima (super limpinha, silenciosa e com mosquiteiros em volta da cama – quem conhece Ilhabela sabe que o mosquiteiro vale ouro), a equipe era bem simpática (mas sem invadir seu espaço) e a comida, um espetáculo: peixe fresco todo dia e receitas com tempero!

Como já era esperado, assim que pusemos os pés no continente, em plena quarta-feira de cinzas, o namorado perguntou se podíamos almoçar em algum lugar que servisse carne, se possível o boi inteiro. Maravilhada por ter de novo acesso ao sinal de celular e ao 3G , usei o pedido dele como desculpa para passar alguns (bons) minutos pesquisando no Google (e em todos os outros aplicativos que não dava pra abrir em Bonete, já que lá nada pegava) e até para ligar para o meu pai e perguntar se ele teria alguma dica.

Achei uma reportagem bem legal da VIP, que falava de um restaurante na Dutra, na altura do km 59, que deveria ser bem gostoso. Na revista, o repórter menciona que pediu um steak ao poivre e, assim, com esse três palavras, decidimos onde iríamos comer. Só restava torcer para a estrada estar vazia e aguentarmos a fome até lá.

Seguimos viagem, ora em silêncio, ora ouvindo rádio, ora escolhendo músicas no iPod e, quando parecia que estávamos perto, peguei o google maps e fui fazendo o countdown para a hora do namorado pegar a saída da Dutra. Estacionávamos o carro na frente do restaurante, quando meu pai ligou: pegou com os amigos o nome de um restaurante na Dutra que eu tinha que conhecer; “Estamos entrando nele agora, pai.” – foi a minha resposta.

O Paturi é um hotel e restaurante na Pres. Dutra, entre Lorena e Guaratinguetá, no sentido São Paulo-Rio (mas que também tem fácil acesso para quem vem no sentido Ri-São Paulo, segundo me contaram). O restaurante tem aquela vibe dos restaurantes tradicionais do Leblon, tipo o Degrau, o Alvaro’s, etc.: parece que você voltou no tempo para 1960 – a mobília de madeira escura e pesada; os garçons que parecem estar ali há gerações; escassez de luz que deixa tudo meio na penumbra, mesmo que seja o meio do dia; os clientes, famílias inteiras ou senhores que já andam de graça no transporte público.

Meu pai, quando ligou, não só tinha dica do restaurante, como também deu a dica do que comer de entrada: o pâté de fígado de pato é um clássico da casa, que faz um enorme sucesso (e pode ser levado para viagem).IMG_2653 No cardápio, ele aparece como pâté de la maison. O namorado pegou um pedaço e preferia não ter provado; eu, então, comi feliz o pâté que pra mim já compensou a parada; nada desses pâtés que mais parecem pastas amanteigadas para você passar no pão, servidos em micro potinhos; é desses pâtés consistentes, que sai em pedaços, com sabor forte, bem temperado e uma pequena borda de gordura.

O cardápio, para combinar com o ambiente, é repleto de pratos tradicionais, como o steak ao poivre (sim, o namorado pediu exatamente este prato), filet com molho de roquefort, pato com laranja, tornedor rossini e, a minha escolha, chateaubriand sauce béarnaise. Pedi para abrirem a carne, para ela vir ao ponto pra bem; uma sacrilégio para os carnívoros, eu sei.

IMG_2662Minha carne chegou devidamente cortada ao meio, rosinha, sem sair sangue, com um monte de batata frita ao lado.  Duvidei das batatas logo que olhei para elas; dessas com cara de que você fez casa, aparentemente meio murchas, mas que estavam bem mais crocantes do que eu imaginava. O molho vem à parte -“para você se servir a vontade”, segundo o garçom -, eu não pensei duas vezes e caprichei na (primeira) colherada de molho sobre a carne.

IMG_2660Pedir um sauce béarnaise é sempre uma caixinha de surpresas; você nunca sabe o que vai aparecer no seu prato – alguns são mais amarelos, outros menos, uns mais líquidos, outros tão consistentes que é preciso dar aquela “balançadinha” na colher pra ele soltar e cair no prato. N’o Paturi o molho se encaixava melhor dessa última categoria, e ele era menos homogêneo que algumas outras versões que já provei, mas estava uma delícia: com bastante tempero (estragão), recém-preparado (estava um pouco morno ainda) e bem pesado (com toda manteiga que lhe é própria).

Usei o molho pra carne, pra batata e pensei em provar ele com pão, até, de tão bom que ele estava. Claro que o prato é pesado (carne vermelha, muita manteiga e metade do prato com batatas fritas) e eu nao consegui comer tudo, mas eu me esforcei, e quase consegui acabar com o molho.

IMG_2658O namorado, que possivelmente está secretamente escrevendo um guia chamado “os melhores steaks poivres que já comi”, depois de dias comendo só peixe, ficou que nem pinto no lixo  com seu steak poivre. O poivre, com cor de molho madeira, e bolinhas de pimenta preta e branca, forte na medida certa. A carne em si não era o boi inteiro, mas deu de sobra.

Durante o almoço, vi várias vezes uma sobremesa passando na bandeja dos garçons, parecendo um mini soufflé. Quando chegou minha vez, a tal glacé soufflé grand marnier (eu sempre achei que fosse ao contrário o nome: soufflé glacé, mas….) já tinha acabado, então fui de mouse de chocolate e o namorado foi de caramelo.

Este, nada mais é que um pudim de leite – eu achei sem graça, mas o namorado curtiu: é geladinho, como um flan, com leve gosto de caramelo e uma lembrança de laranja bem lá no fundo. A mousse foi uma decepção: tinha vindo direto do congelador e perdeu em gosto por conta disso.

IMG_2664 IMG_2665

Pedimos um cafezinho para aguentar o resto da viagem e fomos até o caixa pagar a conta – outro indício da volta no tempo, a máquina de cartão de crédito não vai até a mesa. Apesar de não ter amado a sobremesa, foi um belo almoço e, ao sairmos de lá, voltamos ao presente: é 2015 e o ano realmente começou.

Procura-se: motivos para pegar a Dutra e poder comer n’o Paturi de novo.

(O Paturi – Rodovia Presidente Dutra, km 58 – (12) 3132-1000 – www.paturi.com.br )

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