Crêpes or Crapes?

Quando eu era pequena, na casa da minha avó, a vida era quase mágica: a roupa voltava limpa e passada para dentro do armário, a louça sempre estava lavada e nunca faltava comida. Aí, quando você sai de casa e a grana é bem mais curta, a diarista passa a vir só de 15 em 15 dias, e fica claro para você que para manter a casa limpa e ter roupa para vestir, você vai ter que deixar de sair alguns dias da semana, abrir mão da manicure semanal e nem vai mais precisar de academia.

Mas nem tudo é o fim do mundo, porque o pai do namorado, depois de um sábado cansativo cuidando do lar, chama vocês para jantar no Blé Noir e assim, num passe de mágica, o universo (com a ajuda do pai do namorado) recompensa todas as suas provações. Chegamos lá por volta de 19:20 de um sábado e descobrimos que eles só abrem às 19:30. Como o local é pequeno e famoso por lotar rapidamente, ficamos ali na fila mesmo, atrás das outras três pessoas que já aguardavam por lá.

O pessoal da casa foi arrumando tudo, ignorando solenemente nossa presença e, como para todas as coisas no Rio de Janeiro, abriram as portas com alguns minutos de atraso. A essa altura, a fila de espera já havia crescido em progressão geométrica e o restaurante quase lotou: sobrou somente uma mesa para 4 pessoas, todas as outras foram ocupadas.

Trouxeram os cardápios e ficamos ali tentando ler as pequenas letras à meia-luz do restaurante – acredito que a tentativa seja de um clima romântico, mas no fim das contas vira uma situação cômica, com todos pegando seus óculos, franzindo a testa, fechando os olhos e acendendo lanternas em aplicativos de smartphones. IMG_4512 (1)Os belos mosaicos que enfeitam as mesas acabam ignorados.

Escolhi logo o vinho da casa: um Côtes du Rhone, pelo custo benefício – na dúvida, um Côtes du Rhone é sempre uma boa opção e este custava uns 20% a menos do que os demais rótulos do cardápio. Um vinho leve, fácil de beber, sem qualquer complexidade.

Cada um escolheu sua galette da bretanha: o pai do namorado foi de brie com damasco (R$ 43) – clássica combinação tupiniquim que acho que os franceses abominam; a namorada do pai foi de Fréhel (R$ 67) – camarões com uvas, champignon, espumante e creme de leite; o namorado, comme d’hab, pediu a versão mais pesada das galettes, de hambúrguer – o Moncontour (R$ 62,50) é um crepe recheado com hambúrguer de picanha, cubos de bacon, molhos de vinho  e champignon; e eu fui de Quimper (R$ 53) – queijo de cabra, com mel e amêndoas.

Todas as galettes vêm servidas com uma bela e generosa porção de salada verde com molho de mostarda. O molho (com gosto de mostarda francesa de verdade) estava muito bom e a salada é uma ótima combinação pois é leve, ideal para balancear os vários queijos.

IMG_4519 (1)Fréhel foi elogiadíssima, estava saborosa e com ingredientes na medida certa; já a de brie com damasco parece que deixou a desejar, faltou equilíbrio e a galette acabou ficando enjoativa. Moncontour, o namorado adorou; eu achei sem tempero e sem graça. Em retrospecto, acho que minha opinião é uma espécie de preconceito mesmo, que me impede de falar sobre essa galette de maneira isenta – me parece sacrilégio rechear uma galette com um hambúrguer.

Já  minha galette, de crottin (dizem que o termo é derivado de crotte) de cabra com mel e amêndoas, para mim alcançou a perfeição: a casca é super fininha e crocante; o crottin de cabra estava bem derretido, e a combinação do queijo leve, de sabor presente e salgado, com a doçura do mel e a crocância das amêndoas foi o casamento perfeito. Confesso que demorei um pouco a encontrar as amêndoas, já que elas vêm concentradas mais no meio da galette e acabam um pouco ausentes das beiradas e pontas.

Não consegui comer tudo – a porção é bem servida e ainda tem a já citada saladinha -, mas não tinha como ir embora sem comer um crepe doce.

IMG_4544 (1)Consegui convencer o namorado a dividir comigo Surpresa do Chefe (R$ 35,50): sorvete de creme em massa de crepe, calda de chocolate, morangos caramelizados, amêndoas (meu vício inofensivo) e cointreau para flambar. Parece um exagero (e é), mas é uma delícia e ainda tem o “momento diversão” quando o garçom flamba o crepe à mesa. O crepe não fica excessivamente doce, já que o chocolate é meio amargo e os morangos tem um gosto mais ácido, o sorvete é bem cremoso e a mistura realmente fica sensacional.

O serviço é eficiente, mas falta um pouco de gentileza e atenção (os 10% são opcionais, segundo o aviso no cardápio); a rotatividade das mesas é alta, mesmo num sábado à noite. Enfin, o restaurante se adequa ao estereótipos culturais: ótima comida francesa e serviço tipicamente descortês. Ou isso também é implicância?

(Blé Noir – End.: Rua Xavier da Silveira, 19/ Loja A – Tel.: 2267-6969 – https://www.facebook.com/leblenoirbrasil )

Anúncios

Já foi lá? Não foi, mas ficou curiso(a)? Curtiu o post? Me conta tudo aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s