Para comer com os olhos

Segundo meu pai, meu gosto pela leitura começou tarde; foram inúmeros livros não lidos, entre Monteiro Lobato e adaptações infanto-juvenis sobre mitos gregos. Até que, lá pelos 9 anos, ganhei O Mundo de Sofia. A partir de então me tornei incansável e vivia pedindo novos volumes, li as obras de Joostein Gaarder à exaustão.

Com o passar do tempo parei de me culpar por não terminar alguns volumes, aceitei que determinada forma de escrita não me agrada e a leitura muito árdua perde o interesse para mim, deixa de ser prazerosa.

Foi somente muito mais tarde, após me tornar uma ávida devoradora de livros (nem sempre obras das quais falo com orgulho), que descobri os encantos dos livros sobre comida.

Meu primeiro de culinária foi um homemade, uma espécie de herança familiar: minha tia e minha mãe, durante anos assistiram minha avó fazendo truques e travessuras na cozinha, de cabeça, sem anotar uma vírgula e, com medo de que isso se perdesse, começaram a anotar e compilar as receitas das coisas que minha avó preparava com carinho para a família todos os dias. Temos, minha prima e eu, um volume chamado “Receitas para Sempre”, anotado à mão, com algumas rasuras e algumas receitas coladas de jornais e revistas que servem tanto para o nosso dia a dia, como para um dia saudoso quando queremos comfort food, até para os dias de festa – a receita de bacalhau ao creme de minha avó materna é tradição natalina até na minha família paterna e teve espaço inclusive no cardápio do casamento da minha mãe.

Depois vieram celebridades: tive um livro do Alex Atala que, por ser muito rebuscado, presenteei a uma amiga, mais merecedora do que eu, já que, a meus olhos, ela é uma verdadeira chef de cuisine; tenho alguns volumes do Jamie Oliver e, apesar de achar algumas receitas ótimas e simples, em alguns casos me decepciono pela falta de ingredientes locais – nunca, por exemplo, consegui fazer uma de suas receitas que leva ruibarbo; um amigo muito querido me presenteou também o livro do Rodrigo Hilbert, uma compilação de receitas do estilo de comida caseira preparada por avós; outra amiga, dessas que já fazem parte da família, me deu, sabendo de meu vício pela pela salada de batata frita, um livro de receitas do Gula Gula que foi tão usado lá em casa, que hoje fazemos as receitas sem nem precisar recorrer ao livro.

Mas a musa-diva da atualidade não vem em forma de livro, mas sim em forma de blog: o site do Panelinha, da Rita Lobo, é uma das 8 maravilhas da atualidade certamente (já ouvi por aí, de mulheres cisgênero e bem resolvidas, que pegariam a Rita só pelo fascínio que tem pela persona concretizada nas receitas). Desde comidinhas do dia a dia que você prepara rápido e suja somente uma panela, até receitas mais elaboradas para dias especiais, tudo funciona e dá certo – as pitadas de sal, o espaço entre as batatas que vão ao forno, o tempo de cozimento. É impressionante como tudo se encaixa, se completa, se abraça e fica gostoso. Devo a ela minha atual fama de mestre cuca que o namorado me atribui.

Daqui, resolvi partir em busca de um novo tipo de livro de comida. Não mais livros que se limitem a passar receitas, queria um livro que expressasse essa relação que temos com a comida, com a refeição, enfim, com esse ritual que permeia nossos dias e acaba governando nossas relações. Uma amiga, fonte inesgotável de dicas de leitura, me indicou O Dilema do Onívoro, de Michael Pollan, mas, além de criticar levemente a tradução para o português, disse que estava com dificuldades, que o livro não engatava e que ela estava demorando na leitura. Achei então que esse não seria um bom ponto de partida e segui em frente.

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Quando terminei de ler James Salter, All That Is, a Amazon veio me indicar outros títulos do autor e, entre eles, para minha surpresa, havia um volume intitulado “Life is Meals: A food Lover’s Book of Days”.  Automaticamente me identifiquei com o título e acabei comprando-o no Kindle. Confesso que às vezes essa vida em preto e branco oferecida pelo leitor da Amazon me deixa pra baixo, mas logo que li a introdução fui agarrada: é um livro escrito pelo renomado autor junto com a esposa, que passaram anos pesquisando sobre comida, hábitos e curiosidades culinárias e criaram este livro que fala de tudo em forma de diário.

Cada dia do ano é uma “entrada” com anedotas, curiosidades e informações: desde uma breve história do primeiro restaurante em Paris, passando pela forma como os grãos de pimenta adquirem cores diferentes (pimenta verde, preta, branca e vermelha), até sugestões de receitas e dicas para receber amigos em casa para o jantar.

São pequenas doses de conhecimentos e diversão que estão me acompanhando no metrô, na hora do almoço e antes de dormir, que trazem uma certa cultura inútil e aumentam ainda mais a fome. Recomendo para todos que buscam uma leitura leve e despretensiosa que alimenta no sentido mais amplo da palavra. Já marquei alguns encontros para botar em práticas as dicas do meu mais novo livro de cabeceira. E você: qual sua dica?

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