Dialética Erística do Convívio

Viver junto é um exercício constante de paciência; uma longa negociação diplomática – ao contrário do que ocorre lá no Congresso, aqui não tem recesso e não pode xingar Vossa Excelência. Ter razão não é o mais importante; mais vale a habilidade de argumentação em um discurso bem construído baseado tão-somente em hábitos, gostos e preferências pessoais.

A verdade é que tem que aprender a hora de ceder; deixar de lado algumas questões, para lutar por outras mais importantes. Panelas na geladeira, tábua da privada levantada, carregadores de celular surrupiados; todas questões que a gente vai “ajustando” aos poucos.

Mas, por sorte, se tem uma coisa que não causa atrito é comida: o namorado e eu amamos comer, conhecer novos restaurantes, testar os limites das nossas papilas. Resolver,então, almoçar na CADEG para conhecer o novo restaurante Uruguaio de carnes não exigiu maiores estratagemas dialéticos. Como dia de domingo muitas coisas fecham cedo por lá – ou nem abrem -, não perdemos tempo fuxicando os maravilhosos empórios do Centro de Abastecimento e fomos direto para o restaurante La Parilla del Mercado.

Quase dei meia volta e fui para outro lugar. Explico: domingo é dia de música ao vivo – uma banda tocando um repertório de pagode cum samba em um volume que até inibe conversas. Mas, como já estávamos ali e conseguimos uma mesa um pouco mais escondida, resolvemos ficar.

Logo de cara já olhei o serviço com maus olhos: o senhor que organiza a fila das mesas não foi muito solícito nem atencioso e o garçom, no meio do meu pedido de bebida, virou-se de lado e passou o atendimento para outro. Tive que repetir um simples pedido d’água com gás.

Da carta de vinho, escolhi um Norton, que estava em falta. O garçom me recomendou ir até o outro lado, onde encontrei as opções de vinho dispostas em uma estante. A especialidade da casa, por óbvio, são os vinhos com a uva Tannat, mas eu queria alguma coisa diferente. Um dos donos estava por lá e me ajudou; acabei com um vinho nacional feito com uma uva que desconhecíamos – Ancellotta. O vinho, Milantino, foi servido muito gelado, acentuando o gosto do álcool, mas na medida em que alcançava a temperatura ambiente, achamos o paladar bem agradável e tinha um ótimo custo benefício.

Resolvemos pedir a Parillada Completa para 2 pessoas (750 gramas de carne), com direito à três acompanhamentos (R$ 149). O churrasco completo tem: asado, bife de chorizo, picanha, vacío, linguiça premium e frango desossado; para acompanhar pedimos: salada da casa; farofa de ovo; e batatas rústicas.

IMG_4788A salada, que pedimos para trazerem como entrada, estava muito bonita; ingredientes claramente frescos, mas vem sem tempero algum e tudo que consegui foi um azeite. (Vamos combinar que salada precisa de tempero né?!)

Não demorou muito – nem consegui terminar a minha salada – e já trouxeram a parrillada, a farofa, as batatas, molhos chimichurri e campanha.

IMG_4800A farofa era dessas que tem mais ovo que farinha; um monte de ovo mexido, com um pouco de de farinha jogada em cima, servida fria (e aparentemente, sem ser torrada na manteiga) – em compensação o garçom se ofereceu para colocar mais farinha em cima do nosso ovo. As batatas rústicas são fritas no chimichurri e estavam deliciosas: dessas crocantes por fora, com casquinha, macias por dentro e super bem temperadas (muito me lembraram as batatas rústicas do Panelinha).

IMG_4795No quesito carnes, começamos pela linguiça, sem gordura, sequinha, bem torrada e com um sabor presente; o asado não fez muito a minha cabeça, mas o namorado adorou, a textura da carne tendia para borrachuda; o vacío estava impecável, muito macio, sem gordura ou nervos; mas a picanha e o chorizo foram os campeões – macios, no ponto certo para nós (bem passado) e temperados no sal grosso na medida certa. E o frango, bem, foi deixado de lado – venhamos e convenhamos: quem vai comer frango depois dessas carnes todas?

IMG_4801Como todos sabem, um dos fortes do nosso vizinho cool e descolado é o doce de leite, então, não tinha como irmos embora sem comer o panqueque de dulce de leche con helado. Aqui ela vem com açúcar torrado em cima para dar um certa crocância; um leve toque azedinho de limão e calda de morango; massa em formato de pastel; recheio de doce de leite desses consistentes, quase caseiros, como aqueles que a vovó fazia cozinhando a lata de leite condensado. Este foi um momento de satisfação à mesa.

Quando começamos uma nova vida ao lado de outra pessoa, tudo é novidade e vemos pequenas diferenças com entusiamo e admiração até que se tornem corriqueiras. Aqui, apesar do brilho do novo, não fomos contagiados por uma grande felicidade ou animação; foi só mais um lugar comum. Na hora da conta, também preservamos a harmonia do casal, o namorado e eu dividimos o valor irmamente. A opinião sobre o restaurante também foi um ponto de fácil acordo: custo/benefício = não devemos voltar.

(La Parrilla Del Mercado – End.: Rua Capitão Félix, 110, Lojas 8 e 10, CADEG, Rio de Janeiro – Tel.: 2589-0022 – La Parrilla del Mercado no Facebook )

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