“De repente 30”

De presente de aniversário de 30 anos eu pedi (pro papai do céu e pra professora de pilates)  pra ficar com a bunda igual a da Paola Oliveira. Os 30 chegaram, já passaram da metade e tudo que ganhei foram kilos, cabelos brancos e um fiador (mas sigo com a mesma professora de pilates). O elemento gastronômico ficou por conta do namorado que organizou inúmeras surpresas de comemoração.

Uma das comemorações foi no clássico restaurante russo de Teresópolis – Dona Irene, que funciona há mais de 30 anos e somente mediante reserva. E mais, na hora da reserva você já deve escolher o prato principalClaro que entre tantas vodkas, flashes e abraços, acabei não me concentrando o suficiente na comida. Então, quando o namorado e eu fomos de novo a Teresópolis, decidimos voltar em prol do post mais longo da história desse blog (dada a quantidade de comida que eles servem).

Uma casa antiga (ou seja, sem ar condicionado) com área externa e uma maritaca; para grupos grandes eles utilizam quartos/salas individuais que garantem privacidade e um ar mais intimista ao almoço. Assim que chegamos, a filha da atual dona (a Dona Irene do nome faleceu há alguns anos) disse que a filosofia do restaurante é “devagar e sempre”; eles começam a preparar os pratos quando os clientes chegam e por isso mesmo o serviço demora mais que em outros locais. Entre a enorme quantidade de pratos servidos e o tempo entre cada um, é normal o almoço durar mais de 4 horas.IMG_6239

Para beber, pedimos a vodka da casa, feita com especiarias e servida incrivelmente gelada – ela vem congelada num baldinho. É um dos carros chefes da casa (a história da vodka tá lá no site deles), de fabricação própria, cuja fórmula é tão ou mais secreta que a da Coca-Cola. As garrafas são relativamente pequenas e no dia do meu aniversário em algum momento nos informaram que havia acabado a vodka – ficamos inconsoláveis – e hoje desconfio que seja uma tática para evitar descontrole.

IMG_6237A refeição começa com “pequeno bocados” – vários belisquetes, pastinhas, entradinhas…. Tem: alho poró marinado com maçã verde (esse vamos tentar fazer em casa de tão incrível); tem beterraba com frutas (sabor doce e refrescante); ovo com raiz forte (confesso que não consegui comer esse, mas o namorado jura que estava bom); patê de fígado (cremoso, com sabor forte e tempero impecável); mini-espetinhos de tomate com queijo (gostoso, mas lugar comum); caviar de beringela (uma pastinha agridoce e aveludada que comi toda sozinha); mousse de alho (sabor forte de alho cru, boa para misturar com as outras entradinhas); grão de bico com salsinha; pasta de azeitona verde; batatinhas marinadas com limão, ervas e azeite (sabor diferente e muito gostoso), maionese de maçã e, para poder acompanhar isso tudo, torradinhas quentinhas, fininhas, crocantes com manteiga. Tudo saboreado vagarosamente sem moderação. IMG_6242

Em seguida, uma das garçonetes com roupas típicas maravilhosamente kitsch traz a sopa de beterraba – o famoso borscht – e uns bolinhos chamados pirozhkis (piada pronta). A sopa, como nos informaram, é tomada como chá, servida fria e com creme fresco, consistência mais aguada, com paladar agradável de somente e tão-somente beterraba, mas confesso que não nos vejo testando essa receita em casa.

Os bolinhos (que o pessoal do restaurante chama de pastel), por suaIMG_6244 vez, merecem um parágrafo próprio! Porção de dois bolinhos por pessoa, quentinho, massa leve e fofinha (para mim, lembrou massa de pão subcozido; para o namorado lembrou pastel chinês, o que faria todo sentido dada a localização geográfica), bem sequinhos, são recheados com carne moída (dessas secas, sem molho) e devem ser apreciados com tabasco e/ou molho inglês.

Na etapa seguinte dessa maratona gastronômica, vieram algumas porções que desafiaram nossas preferências culinárias e, ao invés de dividirmos irmamente, optamos por ficar cada um no seu quadrado. O namorado ficou com as asinhas de frango gratinadas com queijo, para comer com as mãos e lamber os dedos, bem sequinhas, sem gordura, crocantes, temperadas e com o tal queijo que fez toda a diferença, segundo o namorado. Eu fiquei com as leguminosas: beringela com molho de tomate e abobrinha com molho de queijo. Aquela foi servida em enroladinho, recheado com queijo beeeem derretido e um molho de tomate caseiro bem temperado que me faz lamentar essa aversão do namorado ao tomate; esta também foi servida em rolinhos, a fatia bem fininha, com recheio de queijo e molho de 4 queijos levemente gratinado. Acabei fazendo um misto de molho e legumes que ficou incrível, pena que essa não vai dar para fazer em casa. Suspeito que as variedades aumentam de acordo com o tamanho do grupo; lembro de uns folheados que comemos no aniversário que não deram as caras dessa última vez, mas acho que nem fizeram falta.

A essa altura, muita vodka já rolou e o prato principal é essencial para as pessoas sairem de lá andando em uma linha minimamente reta, mesmo que pareça que já se comeu demais (aqui caberia um aviso para não beber e dirigir). Os pratos principais chegam aos poucos…. no nosso caso, o meu chegou quando o namorado já tinha praticamente acabado de comer. No dia do meu aniversário, o suflê de peixe demorou tanto que, não fosse o fato de que isso não alteraria em nada o valor do almoço, teríamos cancelado o pedido. Mas, tudo vale a pena se a alma já bebeu bastante vodka.

IMG_6255Ao contrário do que se faz com estrogonofe por essas bandas tropicais, o strogonoff original não leva molho de tomate. O creme é misturado ao molho inglês, caldo de carne e cogumelos e o namorado adorou o prato dele! Apesar do molho inglês, o creme estava salgado na medida certa e o tempero estava incrível, as mini-tirinhas de filé, bem macias, acompanham ainda arroz branco e batata frita e – trust me – não é nada difícil raspar o prato e não deixar sobrar nada. IMG_6257

Eu havia pedido o Podjarka – um prato com mini-paillard de frango (sobrecoxa cortada em pequenos pedaços bem batidinhos para ficarem fininhos e sem gordura) e de mignon, servidos num molho flambado de creme com ervas de sabor bem leve, tipo de strogonoff, com champignon e batatas noisettes (que não são fritas).IMG_2986 Achei muito gostoso, mas não pude deixar de me arrepender um pouquinho, pois o prato que havia pedido no meu aniversário era impecável: o Pojarski. Uma grande almôndega de frango, envolta em croutons e recheado com manteiga, lembra um pouco o frango à kiev, mas melhor! Crocante, macio, saboroso e grande o suficiente para dividir.

IMG_5761Da outra vez, me surpreenderam e encomendaram uma torta inteira do Dona Irene para cantarem parabéns; dessa vez, como éramos só dois, nos aventuramos pelo cardápio de sobremesa. Mas acabamos escolhendo a mesma torta do meu aniversário: torta de sorvete com nozes e chocolate – refresca e mata a vontade de comer um docinho, sem ser excessivamente açucarada.

A surpresa da conta varia em função da quantidade de vodkas e bebidas que a mesa consumir: o menu completo (incluindo  a sobremesa) é R$ 130 por pessoa, cada garrafa de vodka custa R$ 35 e a água é R$4 e eles não aceitam cartão. Substituí o objetivo de ter uma bunda de Paola Oliveira pela estranha satisfação de poder dizer que sou Balzac e, como já dizem nossos poetas, “não me importo em ver a idade em mim”.

Soundtrack: https://youtu.be/NExRHKWY5P8

(Restaurante Dona Irene – End.: Rua Tenente Luiz Meirelles, 1800 – Bom Retiro, Teresópolis – Tel.: (21) 2643-3813 – www.donairene.com.br )

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