“Topzera”, #sqn

“Ninguém sabe descrever uma cidade, são as cidades que nos escrevem a nós.”  – No meu Peito não Cabem Pássaros, Nuno Camarneiro

Cada cidade tem sua própria personalidade: características, sentimentos, ritmo próprio…. Uma cidade é muito mais que a soma de cada uma de suas partes e imprime em seus habitantes determinados hábitos e peculiaridades.

Em São Paulo estamos anotando os pequenos detalhes que vão nos ajudar na nossa adaptação: ausência de pessoas usando havaianas para ir ao mercado, pontualidade até quando o plano é só ficar bebendo na casa do amigo, calças de couro no verão. Outro dia, então, quando fomos escolher um restaurante para o almoço de domingo, e escolhemos um francês que parecia servir algumas delícias, acabamos descobrindo mais um.

O Philippe Bistrô é uma casa de esquina, com área externa e janelas grandes para entrar bastante sol. Salão intimista, com sofá em uma das paredes; decoração em preto e branco e detalhes amarelos e um sorriso no rosto do garçom que nos recebeu e nos indicou uma mesa.

O cardápio, desses de uma folha só, é enxuto com clássicos de bistrôs franceses, como steak tartare poivre. Outra carta contém um leque limitado de opções de vinho – taça, meia garrafa e garrafa inteira-, além de algumas opções de drinks.

Para começar, pedimos o camembert empanado (R$ 42) e uma meia garrafa de vinho branco – Finca La Linda Chardonnay (R$ 63). O garçom primeiro me trouxe uma meia garrafa de Alamo, tinto. Confesso que não vejo nenhum ponto de interseção que justifique essa confusão, mas tudo se resolveu rapidamente.

O camembert não demorou a chegar. Ele é empanado inteiro, decorado “delicadamente” com um galho de alecrim espetado em cima, servido com mel trufado e cesta de pães e torradas. O pão é servido em fatias mornas, como se fosse pão de forma; as torradas lembram uma pizza branca, que passaram do ponto e ficaram muito tostadas. O queijo estava bem derretido nas extremidades, e duro no meio; a quantidade de queijo, que pode ser enjoativa, é contrabalanceada pelo mel trufado, servido com (muita) moderação.

Enquanto apreciávamos nossa entradinha, o maitre veio nos perguntar se já tínhamos selecionado o prato principal. E aí veio o detalhe sobre São Paulo que desconhecíamos: ele precisava tirar o nosso pedido de qualquer forma, pois a cozinha fecharia às 16h30min.

Pressionados a fazer o pedido, o Marido foi de risoto de camarão e eu pedi uma salada. Enquanto alguns garçons já arrumavam o restaurante à nossa volta, esperávamos nossa comida e nos questionávamos: se o restaurante fecharia em meia hora, porque diabos nos deixaram entrar sem avisar nada?!

Finalmente chegaram nossos pratos. O risoto de camarão (R$ 56) com alho-poró confit do Marido, também “delicadamente” decorado com galhos de tomilho, é uma porção bem servida de arroz que passou do ponto e ficou empapado, com muito tempero (alho, alho-poró e ervas) e pouco camarão, que não dava nenhum sinal de ter sido flambado, como prometia a descrição do cardápio. Até o momento, não entendi o que eles queriam dizer com alho-poró confit.

A minha salada (R$ 43), que leva o nome do restaurante, veio com folhas variadas, (um) aspargo fresco fatiado em pedaços, meio tomate (supostamente) confitado e com ervas  em cima, alguns pedaços de nozes, e duas fatias de pão com (um pouco) de tapenade de azeitona e (quase nada) de queijo de cabra que derreteu demais. A combinação tinha tudo para ser boa, mas deixou a desejar. Tentei temperar as folhas com o azeite que estava na mesa, já que pimenta e balsâmico não foram nem oferecidos.

Rapidamente retiraram nossos pratos (é incrível como todos se tornam muito eficientes quando querem ir embora) e nos ofereceram sobremesa ou café. Juro que o garçom fez um careta quando pedi para ver o cardápio.

Nossa vontade era não pedir mais nada: não nos sentíamos bem-vindos e nada que havíamos comido era bom o suficiente para justificar mais um pedido. Mas uma opção do cardápio nos chamou a atenção e, como não voltaremos lá nunca mais, resolvemos que seria nossa única chance de provar o bolo de bem-casado servido com sorvete de vanilla (R$ 21). 

Com cara de naked cake – duas fatias de bolo, uma em cima da outra, com recheio de doce de leite e sem confeito ao redor para esconder as imperfeições da massa – a fatia servida não é nem grande nem pequena, mas vem caprichada no recheio. A massa é quase um bom bem-casado, mas falta ser mais fofinha e levinha e o sorvete é (Kibon) de creme.

Pedimos a conta, que com certeza já estava pronta, e, ao avisarmos que esqueceram de lançar o vinho, não ouvimos nem um obrigado.

No Rio, não importa a hora que o pessoal sai da praia ou acorda da balada, todos os restaurantes estão abertos e prontos para servir o almoço, seja meio dia, seja cinco da tarde. Mas tente levar esse costume para São Paulo e você pode acabar passando fome, sendo mal atendido, ou comendo um prato que parece feito nas coxas.

(Philippe Bistrô – End.: Rua Normandia, 103 – Tel.: (11) 5532-0807 – philippegourmet.com.br )

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